Páginas

sábado, 5 de março de 2011

“ENTRE ESQUERDA E DIREITA, CONTINUO SENDO PRETA”

Sueli Carneiro acende (mais um) cigarro, solta uma longa baforada e, com toda a gentileza que lhe caracteriza, aperta outra vez o gatilho de sua metralhadora verbal:
“Você está distorcendo meu discurso”; “o movimento feminista, com suas bandeiras de luta de mulheres brancas de classe média, não atende às nossas reivindicações”; “No Brasil, existe quase uma coincidência entre ser negro e ser pobre”.
Opiniões fortes, contundentes, Sueli, formada em Filosofia pela USP, é uma das dirigentes do Geledés, Organização Não-Governamental (ONG) que reúne mulheres negras. Ela foi entrevistada por Demétrio Magnoli e Jayme Brener, da equipe de Mundo, em uma promoção conjunta do boletim e da TV USP, com a mediação do jornalista José Arbex Jr. Veja os principais trechos da entrevista.
José Arbex – O que é o Geledés?
Sueli Carneiro – É uma ONG criada e dirigida por mulheres negras, que combate o racismo e o sexismo que existem em nossa sociedade. O Geledés nasceu em 1988 a partir da constatação de duas insuficiências. A primeira, dos movimentos feministas, que não incorporam efetivamente as contradições de raça, que transformam as mulheres negras em uma categoria especial, sobre a qual recaem discriminações de gênero, de raça e de classe social. A segunda insuficiência é dos próprios movimentos negros no Brasil.
Cansamos de tentar sensibilizar os dirigentes desses movimentos para a dimensão de gênero presente no combate ao racismo.
Jayme Brener – Recentemente, dirigentes de movimentos negros se manifestaram a favor da ação afirmativa, de quotas reservadas para negros nas universidades e empregos públicos.
Qual é a posição do Geledés sobre isso?
Sueli Carneiro – Somos absolutamente favoráveis. Partimos do pressuposto de que é preciso promover uma discriminação positiva, para garantir a igualdade àqueles que foram tratados de forma desigual, ao longo do tempo. A situação de negros e brancos, ou de mulheres negras e mulheres brancas na sociedade brasileira, é parecida à de dois corredores: um deles amarrado e o outro livre. O negro é o corredor amarrado por um processo de abolição da escravatura não concluído até hoje, e por mecanismos de discriminação que sobrevivem em nossa sociedade. É uma competição totalmente desigual, sobre a qual a ação afirmativa pode operar. Mas ela não resolve o problema de quem está abaixo da linha da pobreza. Políticas que permitam a intelectuais negros e profissionais negros capacitados ocuparem postos aos quais só não chegam por conta da discriminação, devem estar conjugadas a medidas eficientes de combate à pobreza ou de erradicação do analfabetismo.
José Arbex – Você pode falar um pouco sobre a questão da pobreza entre a população negra?
Sueli Carneiro – Nós, negros, somos oficialmente 44% da população brasileira. Segundo as Nações Unidas, o país ocupa o 74º lugar, no mundo, no Índice de Desenvolvimento Humano (n.r. IDH). Mas se você aplicar o IDH apenas à população negra, o Brasil cai para o 118º lugar, atrás de todos os países da América Latina, menos a Nicarágua, e de muitos países da África. E se você estudar apenas a população branca, o Brasil vai à 49ª posição. Não é exagero, então, identificar pobres com negros no país.
Demétrio Magnoli – Há aí um problema: a manipulação de estatísticas. Se desagregarmos o IDH brasileiro por regiões, teremos provavelmente resultados muito semelhantes. Se desagregarmos o IDH entre a população urbana e a população rural, vai acontecer a mesma coisa. Tudo isso diz muito a respeito da discriminação do negro, mas também sobre as desigualdades gerais de renda no Brasil...
Sueli Carneiro – Não é gratuito o fato de o Nordeste apresentar os piores indicadores, porque é lá que a população negra está mais concentrada. Quanto à questão rural, há estudos que demonstram a segregação dos negros no campo. Você pode tentar relativizar o problema usando a questão da regionalidade, mas ela própria tem implicações de cor e raça. Agora, quais são os mecanismos que podem reverter esse quadro? Porque ou partimos do princípio de que a história dos homens é assim mesmo, tem vencedores e vencidos e que pena que vocês se deram mal, ou defendemos uma visão mais ampla de democracia, que incorpora a busca radical pela igualdade, pelo respeito e a valorização da diversidade humana. Estou falando da perspectiva utópica de construção radical de outro tipo de sociedade, na qual gênero e raça não sejam fatores de exclusão e produção de privilégios.
José Arbex – Os resultados do Projeto Genoma Humano  revela que o conceito de raça não se sustenta, do ponto de vista científico.
Será que vocês, ao se valerem de uma lógica racial, não estão contribuindo para a sobrevivência do próprio racismo?
Sueli Carneiro – O conceito de raça é, acima de tudo, uma noção política que vem sendo usada historicamente para estruturar privilégios e exclusões. E as revelações do Genoma Humano não têm sido suficientes para impedir a ascensão do racismo e da xenofobia no mundo. Não se sabe como tratar com o fenômeno da proliferação do racismo na Internet. Não existem sequer mecanismos legais para isso. Então, não se pode esquecer a base racial do debate.
Jayme Brener – O Brasil vem sendo, ao longo da história, uma sociedade excludente. E embora os negros tenham provavelmente sido as maiores vítimas, não são as únicas. No momento em que vocês defendem a discriminação positiva, não estarão sendo injustos diante de outras parcelas discriminadas?
Sueli Carneiro – Você trabalha com a idéia de que somos uma sociedade multicultural, plurirracial, essas coisas. Isso abriga uma tendência a relativizar a discriminação, tornar todas as suas formas equivalentes: a discriminação contra o negro, contra a mulher, o gordo, o homossexual... Mas a comparação não é possível porque, inequivocamente, negros e índios sofreram a maior espoliação dentro da sociedade brasileira.
Demétrio Magnoli – Falando em homossexualismo, há pouco tempo o historiador Luís Mott afirmou que Zumbi, herói negro da resistência contra a escravidão, teria sido homossexual.
Os movimentos negros protestaram...
Sueli Carneiro – A questão remete às razões que nos levaram a criar o Geledés: mulheres negras se organizando em torno de problemáticas específicas. O problema é que a identidade social, por si só, não produz solidariedade de gênero e nem a identidade de gênero produz solidariedade de raça. É perfeitamente possível ser um ativista contra o racismo e conservar o machismo. Assim como é possível ser feminista e racista. O Geledés interveio na discussão sobre a orientação sexual de Zumbi, dizendo que, se ele era homossexual, isso apenas aumentaria a legitimidade de sua liderança. Porque expressaria um campo ainda maior na luta contra a opressão.
José Arbex – O prefeito de São Paulo, Celso Pitta, só lembrou que era negro no momento em que estourou um escândalo de corrupção que pôs em xeque o seu governo. Ele então saiu de casa com um cartaz dizendo que estaria sendo perseguido por ser negro. Você acha que essa postura é reveladora da atitude de uma certa elite negra, que só se lembra da cor na hora de instrumentalizá-la?
Sueli Carneiro – Não me consta que o Pitta não tenha consciência de sua condição de negro. Não se tem notícia dele como ativista, mas Pitta sempre esteve envolvido com setores negros que experimentaram alguma mobilidade social e que têm posições políticas mais conservadoras. O que eu acho complicado é que vocês tendem a se referir a nós como “os negros”, “vocês, negros”, como se fôssemos um bloco específico da humanidade.
Somos seres humanos como os demais, com diversas visões políticas e ideológicas. Eu, por exemplo, entre esquerda e direita, continuo sendo preta.
Jayme Brener – Você disse anteriormente que 44% dos brasileiros são negros. Isso inclui muita gente que não se considera negra. Será que você não está usando o conceito de “nós, negros” quando interessa, na hora de pedir medidas de ação afirmativa, e esquecendo esse discurso, por exemplo, quando se debate sobre o Pitta?
Sueli Carneiro – Você está distorcendo o que eu disse. Está questionando essa configuração do negro como se ela fosse uma invenção minha. Não é. O diagnóstico sobre as desigualdades que atingem a população negra é praticamente um consenso no Brasil. O problema é o que fazer com isso: deixar correr frouxo ou buscar uma sociedade mais igualitária, mexer nesse reduto de exclusão que os negros representam.
Porque a condição marginal do negro na sociedade brasileira não é um problema apenas para os negros. Ela coloca em pauta o projeto de país que se tem, já que elimina do mercado uma parcela significativa da população.
Demétrio Magnoli – Você é negra ou afro-brasileira .
Sueli Carneiro  -Eu uso indistintamente os dois termos. Mas entendo que os conceitos de afro-brasileiro e afro-descendente devem ser mais usados politicamente, devido ao que refletem da nossa experiência histórica, do nosso continente de origem.
Boletim Mundo Ano 8 n° 5

Nenhum comentário:

Postar um comentário